sábado, 7 de maio de 2016

Jornalismo

Entrevistando o ministro Dilson Funaro
Após a publicação do jornal do DA da Funepe minha vida teve uma reviravolta. O Pedro Campos gostou dos meus textos, me convidou para uma conversa no jornal e me fez uma proposta de trabalho. 

Foi assim que me tornei repórter do Jornal Interior e acabei enveredando pelos caminhos do jornalismo. Fui escalado pelo casal Pedro Campos e Lúcia Moçouçah para implantar o Jornal de Lins, onde permaneci quase um ano. Corria atrás das notícias, enviava os textos pelo telex do sindicato dos comerciários, garimpava anúncios e, logo de manhãzinha, pegava no guichê da Reunidas os jornais que eram impressos na gráfica do Interior, em Penápolis. 

Foi uma época difícil. Fazia todo o trabalho cruzando Lins a pé ou de bicicleta. Só suportei porque contei com a inestimável ajuda do amigo José Luis de Mesquita que era meu "guia" em Lins. Me indicava os caminhos, da cidade e também da política. 

O "escritório" do jornal ficava na rua Maestro Carlos Gomes, dividindo espaço com uma academia de dança. Eu dormia num quartinho ao lado do escritório, numa solidão terrível. E tudo isso cursando o último ano de Pedagogia na Funepe, o que me obrigava a viajar todo final de tarde para Penápolis e retornar no ônibus das 23:10 ou na manhã seguinte. 

Até que numa tarde, ao voltar da rua, encontrei a Lúcia no escritório do jornal. Toda sorridente ela deu a notícia: "João, o Maurílio Galloppi voltou para a Prefeitura e precisamos de você em Penápolis para ser o editor do Interior". 

Voltei no mesmo dia, de carona com a Lúcia, um pouco frustrado, me sentindo uma peteca nas mãos dos patrões, mas feliz por voltar a Penápolis. Passei a morar numa pensão na rua Altino Vaz de Mello, em frente ao supermercado Sakumoto. Foi um tempo melhor do que a minha estada em Lins, mas durou pouco. 

Um telefonema recebido na pensão, logo no café da manhã, me abriu outros caminhos. Era minha mãe, anunciando que a Rádio Clube de Americana estava compondo uma equipe para inaugurar um novo programa jornalístico. Era uma oportunidade de crescimento profissional, além de poder estudar jornalismo em Campinas, já que naquela época não havia esse curso próximo a Penápolis. 

Viajei para Americana e marquei um horário com o Mauro Girardi, diretor de jornalismo da Rádio Clube. Após uma breve conversa ele disse que minha contratação dependia do Same Najar, proprietário da emissora. Falamos com o Same em seguida e ficou tudo acertado. Pediram que eu aguardasse um contato, pois ainda esperavam a chegada de alguns equipamentos para iniciar o novo programa. 

Aguardei, aguardei, aguardei... Ligava toda semana e ouvia a mesma história. Então desisti e fui procurar outro emprego. Já estava desistindo dessa história de jornalismo quando o Alaécio Dalmédico, um amigo da família aqui em Nova Odessa, me indicou para uma sobrinha, a Silvana Dalmédico, que era repórter do Diário de Americana. 

Fiz um teste num sábado de manhã, sai com o Clemente Buoni, que era o editor do jornal, para cobrir uma manifestação no calçadão de Americana. Um grupo de militantes do PCdoB colhia assinaturas num abaixo assinado pela participação popular na Constituinte. Entrevistei a Maria Noélia de Souza, redigi a matéria e fui contratado. 

Cerca de um ano depois o Clemente transferiu-se para o jornal O Liberal e indicou a minha contratação quando surgiu uma vaga. Nessa época já estava cursando Comunicação Social na PUC Campinas. 

Foi um período muito rico, de muito aprendizado, especialmente pela oportunidade de contato com personalidades da política nacional na primeira eleição direta de governadores após a ditadura militar. 

Foi em 1986 que conheci e entrevistei Lula, Suplicy, Jacó Bittar, Hélio Bicudo, Marta Suplicy, Delfim Neto, Paulo Maluf, Antonio Ermírio de Morais e o então ministro da Fazenda, Dílson Funaro, que aparece na foto em entrevista coletiva no gabinete do prefeito de Americana. 

Sai do O Liberal em 1988 para iniciar a carreira no magistério. Mas tive idas e vindas. Trabalhei no Jornal dos Distritos, de Sumaré, fiz freela no jornal A Notícia, de Nova Odessa, e em 1989 parti para a assessoria de imprensa sindical. Após uma breve passagem pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas fui contratado pelo Sindicato da Construção Civil de Campinas, onde presto serviços até hoje. 

Também assessorei o sindicato dos Químicos de Campinas e o Sindicato dos Queixadas, em Perus (São Paulo). A última experiência na área foi a secretaria de comunicação da Prefeitura de Penápolis, no primeiro mandato do amigo prefeito Joao Luis dos Santos.

Entre idas e vindas, descobri que jornalismo e Educação são duas grandes paixões no campo profissional. Quase inseparáveis.

(Publicado originalmente no Facebook em 21/02/12)

Irresponsável

Marilda Martins
A banca do Berreco, na rua Ramalho Franco, era ponto obrigatório para todos que gostavam de discutir a política local ou nacional. Por ali passavam diariamente o Locão, Joel, Joaoluis Santos, Antonio Carlos, Aderbal, Café e muitos outras figuras. 

E foi assim, passando pela banca para comprar jornal ou algum exemplar da coleção Primeiros Passos, que acabei amigo do Berreco e ele acabou compondo a chapa que montamos para conquistar o Diretório Acadêmico da Funepe. 

Foi da cabeça do Berreco que saíram algumas ideias para nossa atuação no D.A., como o Festival de MPB que realizamos no Ginásio de Esportes e que teve João Ramalho como vencedor, com a música Lua Bailarina. 

Foi também do Berreco a ideia de fazermos um jornalzinho, abrindo espaço para a livre manifestação dos estudantes. Abracei a ideia e liguei para o Pedro Campos, então proprietário do Jornal Interior. Combinei de passar na sede do jornal, que naquela época funcionava ali no comecinho da Rua Dr. Mário Sabino, em frente à Skineve. O Pedro gostou da idéia e pediu que eu passasse pelo jornal para combinarmos tudo e assinarmos um contrato. 

Aproveitei uma das saídas minhas da Jojoca Autopeças para fazer cobranças e passei no jornal. Fui atendido pela moça aí da foto, linda por sinal. Pedi para falar com o Pedro e ela questionou quem deveria anunciar e o assunto. 

"Sou o João, do Diretório Acadêmico da Funepe e vim para assinar um contrato", respondi. 

A moça, então, me olhou de alto a baixo e me disse na lata: "acho que o Pedro quer alguém mais responsável para assinar o contrato". 

O Pedro, que tudo ouvia da sala ao lado apressou-se a me receber e desfazer o "mal-entendido". Assinamos o contrato e o jornalzinho foi publicado. Apesar disso, não pude deixar de considerar arrogância a atitude daquela moça que, na primeira vez que viu, me chamou de irresponsável. 

Quis o destino que ela se tornasse minha melhor amiga, que eu fosse seu confidente, que nos apaixonássemos e que chegássemos em janeiro passado (2012) aos 25 anos de vida conjugal. E muito felizes, eu com minha irresponsabilidade e ela com a arrogância. 

Claro que isso não passou de primeira e falsa impressão, que não ficou. Só o que permaneceu nesse tempo todo foi nosso imenso amor que possibilitou superarmos muitas dificuldades e que gerou muitos casos que vou contar aqui.

(Publicado originalmente no Facebook em 10/02/12)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Discernimento vocacional

Visita ao Frei Osmar Cavaca, em Nova Veneza.
"Joãozinho, estou convicto de sua vocação à vida religiosa e sei que está preparado para ingressar no seminário. Mas fiz essa pergunta aos demais e a farei a você também: você nunca namorou? não sente atração por uma mulher ou necessidade de um relacionamento com alguém do sexo oposto?" 

Naquele momento, no último dia do encontro vocacional realizado no seminário Nossa Senhora de Fátima, em Birigui, apenas sorri diante dessa interpelação do frei Osmar Cavaca, nosso orientador vocacional. Mas naquele mesmo dia, ainda no caminho para casa, a confusão se instalou em minha cabeça. As palavras do frei martelavam como um badalo no sino e me deixavam perturbado.

Não, eu nunca tinha namorado ninguém, nada além das paquerinhas infantis e pré-adolescentes. Sim, eu sentia atração e necessidade de um relacionamento com o sexo oposto como qualquer pessoa normal. Mas até aquele momento considerava ser capaz de abrir mão disso para abraçar a vida religiosa. 

Até aquele momento, porque as palavras do Osmar me tiraram o chão. Minha vida resumia-se ao trabalho, aos estudos e à militância na igreja católica através da pastoral da juventude. Os amigos mais próximos eram o Xavier e o Marcos Belussi, ambos candidatos à vida religiosa como eu. 

Assim, perdido, cheio de dúvidas, partilhei essa angústia com uma amiga de faculdade e de pastoral de juventude. Tínhamos bastante afinidade, conversávamos bastante e muitos amigos comuns, sempre que nos viam conversando, brincavam dizendo que aquilo daria casamento. 

Até então nunca dera importância a essas brincadeiras, pois estava convicto de minha vocação, certo de que me tornaria um frade capuchinho. Mas as palavras do frei continuavam ecoando em meus ouvidos e me colocando em parafuso. Será que de fato era mais que amizade o que havia entre nós e só eu não percebia? 

Para minha surpresa e ainda maior susto, quando falei de minhas angústias, ela se revela apaixonada por mim, mas ressalvando que não queria de forma alguma interferir na minha decisão de seguir a vida religiosa. Minha cabeça ficou devastada por um furacão. 

Sem as facilidades de hoje (internet, telefone) só me restou escrever pedindo ajuda ao frei Osmar, que morava no Seminário Seráfico São Fidélis, em Piracicaba. Várias cartas trocadas entre maio e junho de 1983 e, ao final, o conselho: “João, meu amigo e irmão, se a dúvida persiste, faça uma experiência de namoro, descubra-se. Não importa quanto tempo será necessário. Se concluir que, de fato, seu caminho é a vida religiosa, as portas do seminário estarão abertas pra você”. 

E foi assim que acabei fora do seminário. Não foi nada tão simples, foi uma experiência dura, difícil, dolorida. Enfrentar a ira de outros frades e de familiares que não se conformavam em perder um aspirante à vida religiosa. 

Mas o que importa é o que sobrou ao final desse processo e que o frei Osmar exprimiu muito bem em uma carta que me enviou em maio de 1984: “o que sinto é minha consciência em paz por tê-lo ajudado a descobrir a vontade de Deus para sua vida. O positivo de todo esse processo parece ter aflorado: um João amadurecido, crivado e purificado pela experiência do sofrimento e do encontro com o possível próprio caminho”. 

Osmar não é mais frei. Deixou a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos para tornar-se padre diocesano em Taubaté. Mas enquanto foi promotor vocacional da Província dos Capuchinhos em São Paulo nunca teve como prioridade encher o seminário. Procurou sim, de forma ética, profundamente humana e cristã, auxiliar no discernimento vocacional dos jovens. 

Essa foto retrata um dos últimos encontros que tive com o Osmar. Não o vejo há quase 20 anos. Mas ele ocupa um lugar muito especial em minhas lembranças e em meu coração, pois participou de forma decisiva na definição dos rumos de minha vida afetiva. Obrigado, Osmar, por ter me ajudado a escolher certo e ser feliz.

(Publicado originalmente no Facebook em 04/02/12)

terça-feira, 3 de maio de 2016

Diretas Já em Penápolis


Estava atendendo no balcão da Jojoca Autopeças quando entrou um atirador do Tiro de Guerra trazendo um recado: "o sargento Dib te espera no TG". 

Quando lá cheguei recebi a notícia de que seria incorporado à turma do primeiro semestre. Já era quase o mês de março, além de adiantar um semestre ainda "ganharia" um mês de instrução. 

Só depois de aceitar a "proposta" é que pude entender o motivo de ser chamado para o serviço militar fora de época. "Teve um atirador que se envolveu com movimento político e, por isso, foi desligado", explicou o sargento Dib Salomão. "Espero que você não jogue fora essa oportunidade, fique longe disso", acrescentou. 

Gelei. Imaginei que tinha sido escolhido a dedo, exatamente pela proximidade com o amigo João Luis. Mas era mera coincidência. Cada atirador tinha um nome de guerra estampado na farda, geralmente o sobrenome. Mas como já havia um Santos na tropa (o João Marcelino), João Luis ficou com o nome de guerra João. 

Quando foi desligado do TG, seu substituto precisava ter o mesmo nome e eu fui o escolhido. Usei a mesma farda com o coturno 42 apertando meus pés 43 por vários dias, até que consegui trocá-lo. 

Meu grande parceiro no TG foi o atirador Alves, meu amigo "Talo". Foi um tempo duro, porém de grande aprendizado para a vida. Levantava às 4 da manhã, seguia para a instrução até por volta das 8h, voltava para casa e ia para o trabalho depois de tomar um banho e um lanche. À noite, faculdade até as 23h. 

Minha condição de universitário proporcionou algumas regalias: fui escolhido monitor e sempre era convocado pelo sargento para redigir textos sobre eventos do TG, enquanto os demais atiradores ralavam na instrução. 

Nessa época eu também presidia o Diretório Acadêmico Cajupe, da Funepe, ao lado do Geraldo Malta. O país vivia a luta pela redemocratização com a campanha pelas Diretas Já. Como um bando de jovens loucos, fomos os primeiros a sair pelas ruas em passeata da Funepe até a praça Carlos Sampaio Filho, gritando Diretas Já numa corneta instalada num fusca velho. 

Depois dessa ousadia o movimento ganhou corpo na cidade. E o sargento Dib conseguiu me manter de fora no auge dessa luta política na cidade de Penápolis, o comício das diretas realizado numa noite de domingo na praça. Me escalou para ficar de guarda. 

Postado na frente do prédio do Tiro, de sentinela, ouvia o som forte dos discursos vindos da Praça Carlos Sampaio Filho e sentia, ao mesmo tempo, tristeza por não estar lá, no meio do povo, e uma grande alegria por ter ajudado a deflagrar aquela campanha na minha cidade.


(Publicado originalmente no Facebook em 25/01/12)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Mestre Paulo Freire

Foi cursando Pedagogia na Funepe que conheci Paulo Freire, ou melhor sua obra. Pedagogia do Oprimido, De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, Ação Cultural para a Liberdade, Educação Como Prática da Liberdade, Educação e Mudança… Nesses livros aprendi a ver o mundo, a sociedade, a humanidade e a Educação com outros olhos. Os olhos dos oprimidos, da busca da libertação, da prática da liberdade, da construção da autonomia.

O contato com as ideias freireanas me abriu um novo horizonte de atuação política. Partilhando essas ideias com a Vania Paliota, o Joaoluis Santos, o Gilberto Yuji e o Antonio Carlos Carvalho, surgiu a ideia de desenvolvermos em Penápolis um trabalho de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire.

Contamos com a assessoria do Antonio Folquito Verona, professor da Faculdade de Serviço Social de Lins, que vinha a Penápolis semanalmente para nos ajudar na fundamentação teórica do método, na formação histórico-política e na discussão de cada passo do trabalho.

Às vezes nos reuníamos na sede da JAM (Juventude de Ação Mariana), então coordenada pelo Geraldo Soares Malta, outras vezes em espaço cedido pela então assessora de cultura do prefeito João D’Elia, a Dinair Aires.

Escolhemos o Jardim Tóquio para o trabalho de alfabetização. Ali passamos cerca de três meses convivendo nos finais de semana com as famílias, a maioria de cortadores de cana, com a tarefa de levantar o universo vocabular, a primeira fase do método Paulo Freire que precede a escolha das palavras geradoras.

Uma dessas palavras era COMIDA. Na discussão das situações cotidianas relacionadas à palavra, que precedia a sua decodificação e escrita de novas palavras, a dona da casa abriu a porta do pobre armário revelando sua condição: completamente vazio. Não havia comida. Era a situação de cada família daqueles cortadores de cana, os bóias-frias como eram chamados na cidade, naquele período da entressafra da cana de açúcar. Foi um soco violento em nosso estômago.

E agora, o que fazer? As ideias vão surgindo na medida em que os trabalhadores vão tomando consciência de sua condição de sujeitos. Alguém então propõe: “poderíamos ir juntos ao supermercado do Sesi, que é da indústria, conversar com o gerente e pedir que nos venda fiado até a chegada da safra”. Fica combinado que a ida ao Sesi, onde hoje funciona o Super Amália, na vila São Joaquim, seria na manhã de sábado.

Fui para o trabalho naquele sábado com o coração apertado, uma ansiedade incontrolável, querendo estar lá no Sesi. Era balconista na Jojoca Autopeças, ali no comecinho da avenida Alayde Ferraz de Almeida, a cerca de 500 metros do supermercado, mas não teve como escapar. Só mais tarde, depois de deixar o trabalho, tomei conhecimento dos fatos lá ocorridos e que, naquela época, foram chamados de “invasão/saque do Sesi”.

Os trabalhadores e suas famílias chegaram ao Sesi junto com a Vânia, Yuji, João Luís e Antonio Carlos. As portas estavam fechadas. O grupo esperou um pouco e já começava a se dispersar quando chegou a Tropa de Choque distribuindo cacetetes nas costas de todo mundo.

Yuji, João Luís e Antonio Carlos foram presos. Vânia conseguiu fugir escondendo-se no meio do matagal, onde hoje está instalado o Parque Maria Chica. Ainda vivíamos sob a ditadura, embora agonizante. A pressão psicológica sobre os detidos foi terrível. O prefeito João D’Elia interviu, não sem antes externar sua reprimenda, classificando nossa ação como “infantilismo de esquerda”.

Por estar trabalhando naquele dia me safei de apanhar da polícia e ser preso, mas isso me deixou com uma inveja danada dos companheiros. Infantilismo ou não, o fato é que aquele fato histórico teve conseqüências, imediatas e futuras.

A primeira foi escancarar a situação de penúria vivida pelos cortadores de cana, abandonados à própria sorte e à caridade cristã nas sucessivas entressafras anuais. E dessa constatação surgiu um movimento que tentou buscar alternativas para o problema. Me recordo de uma grande assembléia realizada no Ginásio de Esportes, se não me engano no ano de 1983, com a participação de pequenos proprietários rurais, Usina Campestre, Prefeitura e sindicatos patronal e dos rurais, que propôs o empréstimo das áreas de várzea das pequenas propriedades para plantio de alimentos pelos cortadores de cana nos períodos de entressafra, com cessão de máquinas e apoio da Prefeitura. Idéia boa, mas não prosperou.

Essas lembranças rechearam de uma emoção indizível meu encontro com Paulo Freire, em 1987, numa palestra no Centro Estadual de Educação Supletiva de Americana. Como repórter do jornal O Liberal solicitei e ele gentilmente me concedeu uma entrevista. Certamente a mais importante de minha vida.

(Publicado originalmente no Facebook em 24/01/12)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Funepe

Campus da Funepe
Ao terminar o segundo grau, em 1981, tencionava ir para o seminário dos freis capuchinhos. Mas a ordem tinha decidido só admitir candidatos à vida religiosa maiores de 18 anos. E como eu tinha só 16, fui aconselhado pelo frei Osmar Cavaca, o promotor vocacional, a iniciar um curso universitário.

Por falta absoluta de opção, decidi fazer Pedagogia. Prestei o vestibular da Funepe, passei em 27º lugar e me vi diante de outro problema: como pagar a matrícula e as mensalidades? Ainda não tinha um trabalho assalariado, ajudava meu pai na mercearia, vendia sorvetes e trabalhava no Birosca Lanches nos finais de semana. Mas isso não era suficente.

Foi então que minha mãe entrou em ação. Sempre ela. Nos momentos de dificuldades da família ela sempre tomava alguma iniciativa para buscar uma saída.

Sem avisar ninguém ela procurou o Areonte de Assumpção Rosa, que era presidente da Câmara de Vereadores, e pediu a ajuda dele. Areonte escreveu um bilhete e disse a ela que procurasse o José Mauro Vieira Pereira, diretor administrativo da Funepe.

Cheia de esperança, minha mãe procurou o José Mauro, voltou pra casa e me deu uma notícia fabulosa: você ganhou uma bolsa de estudos integral, vai pagar só a matrícula.

E foi assim que cheguei à Faculdade e iniciei novos rumos na minha vida. Obrigado Areonte, obrigado José Mauro, obrigado mãe!



(Publicado originalmente no Facebook em 13/01/12)

Ecumenismo

"Se insistir nessa loucura não autorizo que o evento ocorra no salão paroquial".

"Tudo bem. No dia e horário marcados para a abertura vamos nos concentrar aqui, na frente do Santuário, e sairemos em passeata até a Igreja Metodista que já nos abriu as portas. E levaremos faixas e cartazes explicando porque a Semana da Juventude estará acontecendo lá".

Foi assim, curto e grosso, meu diálogo com o frei Saul Peron, pároco do Santuário São Francisco de Assis quando assumimos a coordenação regional da Paju (Pastoral da Juventude). A proposta da coordenação diocesana, encabeçada pelo Jaime Isidoro e a Neide Simão da Mata, era de realizar uma semana ecumênica.

Em Penápolis seguimos à risca essa orientação, entendendo que a semana só seria ecumênica se tivesse a participação efetiva de jovens de outras igrejas desde a organização do evento. Abrimos o diálogo com a pastora Railda, da Igreja Metodista, que foi muito receptiva à proposta e nos indicou a Ruth Pereira Dias, que se encontrava de férias em Penápolis, para integrar a equipe organizadora da Semana da Juventude.

Frei Saul não aceitou. Que história era essa de outras igrejas ajudarem na organização de um evento católico? Nossos argumentos não o convenciam. Quando percebeu que estávamos firmes na proposta, deu o ultimato, numa conversa que tivemos à frente da secretaria paroquial, num final de tarde: não terão o salão paroquial para a semana da juventude.

Só não esperava pela resposta à queima roupa: então vamos para a Igreja Metodista. Então cedeu. Se fez presente todas as noites nos debates e reflexões. Sentava ao fundo, meio desconfiado, observando cada detalhe. Esse foi um dos muitos embates que tivemos. Mas sempre mantivemos o respeito e admiração mútuas.

E a Semana da Juventude aconteceu pela primeira vez em Penápolis, revestindo-se de sucesso, seja pelo número de jovens participantes, pela metodologia dialógica adotada nos encontros, seja pela qualidade dos debates. Pra finalizar, levamos uma grande comitiva a Guararapes no dia 22 de julho de 1984, no encerramento diocesano da Semana. Lá tivemos apresentações culturais e a celebração presidida pelo bispo Dom Walter Bini, recém chegado à Diocese de Lins, e por dom Demétrio Valentini, bispo de Jales.

(Publicado originalmente no Facebook em 04/01/12)