sexta-feira, 29 de julho de 2016

Paulista rima com...

"Non ducor, duco", expressão da prepotência e arrogância da elite branca paulista
Já sabia ler e escrever quando fui para a escola, no início de 1972. Também sabia contar, somar e dividir. Mas foi lá na escola “sem partido” do Córrego Grande, bairro rural de Penápolis, que ouvi falar pela primeira vez dos bandeirantes. Fernão Dias Paes, Borba Gato, Bartolomeu Bueno...

As ilustrações dos livros e as explicações das professoras me apresentaram os bandeirantes como destemidos heróis, valentes desbravadores do sertão que, partindo de São Paulo, se embrenhavam pelas matas conquistando territórios, alargando fronteiras, construindo um futuro pujante para o Brasil.

Também foi lá na escolinha “sem partido” da roça que ouvi pela primeira vez o acrônimo MMDC, iniciais de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, jovens mártires da Revolução Constitucionalista.

A morte dos quatro estudantes, no dia 23 de março de 1932, nas proximidades do Palácio dos Campos Elíseos, na capital Paulista, foi o estopim para a revolta armada explodir no dia 9 de julho daquele mesmo ano. São Paulo, assim me ensinaram as professoras, ergueu-se contra o resto do país na luta para restabelecer a liberdade e a legalidade, através de uma Constituinte.

Foi assim, naquela escolinha rural “desideologizada” que fui, pouco a pouco, doutrinado pelo que Luis Fernando Cerri, doutor em Educação pela Unicamp, chama de ideologia da paulistanidade. Ideologia que começou a ser gestada ainda no século 18 e gradativamente foi compondo o currículo escolar, de forma explícita ou oculta, inculcando nos alunos a ideia de que o povo paulista, personificado nos bandeirantes, é “construtor das amplas fronteiras do território e mantenedor da grandeza nacional”, bem como “a mistificação de que São Paulo é o Estado mais rico porque o seu povo é o que mais se dedica ao trabalho”.

Cresci acreditando nesse mito. Alimentando a imagem de São Paulo como a locomotiva da nação, forte, impávido, arrastando os demais estados, lentos e pesados, sinônimos do atraso. Não por acaso. Essa simbologia está no lema da dita Revolução Constitucionalista, “Non ducor, duco”, expressão em latim que significa “Não sou conduzido, conduzo”.

Só muito tempo depois, quando a pluralidade de concepções e conhecimentos voltou a ocupar o ambiente escolar, já com a ditadura militar agonizando, fui descobrir que os bandeirantes nada tinham de heróis. Não passavam de mercenários. Usavam de violência extremada, saqueavam aldeias, praticavam estupros, capturavam e escravizavam indígenas e caçavam pedras preciosas.

Nessa escola que se fazia plural e reflexiva, também comecei a entender que a chamada Revolução de 32 nada tinha de revolucionário. Pelo contrário, era um movimento conservador das elites paulistas, uma tentativa de recuperar o poder tomado por Getúlio Vargas em 1930. Claramente elitista e separatista, o movimento contou com o engajamento da mídia da época, o Estadão à frente, para aliciar e insuflar as camadas populares contra o governo central.

Até 1930, os barões do café, junto com os fazendeiros produtores de leite mineiros, controlavam a economia e a política do país. Paulistas e mineiros ocupavam alternadamente a presidência da República para garantir os interesses da aristocracia café-com-leite. Em 1929, o paulista Washington Luís, deu uma rasteira nos mineiros indicando o também paulista Júlio Prestes para sucedê-lo na presidência. Um golpe! De elite contra elite, mas um golpe.

Júlio Prestes ganhou mas não levou. Nem posse tomou. Mineiros, gaúchos e paraibanos, apontando fraude nas eleições, se rebelaram e, com apoio do Exército, conduziram Vargas ao governo. Um dos vários golpes militares de nossa história republicana.

Além da perda do domínio político, a elite branca paulista passa a assistir, então, à estruturação de uma legislação trabalhista pelo governo Vargas. E começou a tramar um movimento armado para derrubar o que chamava de ditadura. Uma tentativa de golpe contra o golpe militar que barrou o outro golpe. Tudo disfarçado de defesa da democracia, da legalidade e por uma nova Constituição.

Pouco se sabe dos quatro jovens mortos naquele 23 de março de 1932. Penso que não eram muito diferente da massa elitista, preconceituosa e intolerante que ocupou as ruas da capital paulista no início deste ano, uniformizados de verde e amarelo, pedindo a volta da ditadura militar, incensando o fascista Bolsonaro, exigindo o fim do governo popular da presidenta Dilma que, em continuidade aos governos do presidente Lula, promoveram inclusão e avanço nas políticas e direitos sociais sem precedentes. Tudo isso disfarçado de defesa da democracia e de combate à corrupção.

Noutras palavras, mais um golpe! Agora contra a vontade de 54,5 milhões de brasileiros, expressa nas urnas. Mais um movimento confessadamente elitista e separatista, insuflado pela mídia golpista e patrocinado pela Fiesp. Mais uma demonstração do despeito dessa elite branca que, mesmo considerando-se a locomotiva da nação e mantendo sua influencia sobre a economia e a política nacional, não conseguiu eleger um presidente paulista desde Washington Luís.

Muitas são as rimas possíveis. Para mim, entretanto, a que mais se aplica desde sempre aos paulistas é GOLPISTA. Mais atual do que nunca.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Cristofobia?

As prostitutas vos precederão no Reino de Deus”
 (Jesus Cristo, in Mt 21, 31)


Religião não se discute. Cresci ouvindo esse bordão. Até de quem se diz sem religião. Mas creio ser a religião um dos temas mais debatidos em todos os tempos. E não apenas pelos teólogos. Personalidades que inscreveram seus nomes na história da política, da filosofia, das ciências, das artes expressaram reflexões provocadoras e inquietantes sobre o assunto, em linhas às vezes convergentes, em outras paralelas, sem pontos em comum.

Talvez a frase do filósofo alemão Karl Marx, “a religião é ópio do povo”, seja a mais conhecida e usada. Embora em campo radicalmente oposto, o imperador francês Napoleão Bonaparte convergiu com Marx ao afirmar que “religião é aquilo que impede os pobres de matarem os ricos”, talvez porque, pensando como o escritor francês Stendhal, “todas as religiões são fundadas sobre o temor de muitos e a esperteza de poucos”. O matemático e filósofo inglês Thomas Hobbes até especula sobre tais temores, atribuindo-os aos “poderes invisíveis, inventados ou imaginados a partir de relatos”.

Tais posições, entretanto, não são unânimes. Para o líder pacifista indiano Mahatma Gandhi “uma vida sem religião é como um barco sem leme”. Adepto do hinduísmo, Gandhi chegou a admitir a possibilidade de tornar-se cristão “se os cristãos o fossem vinte e quatro horas por dia”.

De minha parte, penso que religião de fato não se discute. Pratica-se. Cônscio de sua limitação e finitude, o homem busca na prática religiosa, no encontro com o Absoluto, princípio e autor da vida, a possibilidade de viver eterna e plenamente. Fatos recentes, porém, me puxaram para esse debate.

Tempos atrás não consegui me conter e publiquei um comentário sobre a troca de ofensas entre um conhecido jornalista e um desses pastores midiáticos, motivada pela performance da atriz transexual Viviany Beleboni na Parada Gay da capital paulista. Mesmo considerando deselegante e inadequada a resposta do jornalista ao pastor, destaquei que não havia nada de cristão na atitude de quem, em sua pregação, incita o ódio, a violência, o preconceito e a discriminação.

Bastou tal comentário para ser acusado, ainda que de forma velada, de cristofobia. Eu, cristão, cristofóbico? É, pode ser!

Thomas Merton, monge trapista do século 20, dizia que “todo homem se torna imagem do deus que adora”. Escolhi adorar o Deus da vida revelado ao mundo em Jesus. Não um Jesus qualquer, mas aquele Jesus histórico que encarnou a vida, as dores e o sofrimento de seu povo. Que teve (com)paixão, se aproximou e caminhou com aqueles que todos evitavam, os excluídos e marginalizados pela sociedade de então: as mulheres, inclusive as prostitutas, os publicanos, os pobres, os famintos, os deficientes, os enfermos, em especial os leprosos.

Aquele Jesus que não orientou sua vida por leis, normas ou regras, mas tão somente pelo amor. Amor incondicional consubstanciado no perdão sem limites, na tolerância e respeito às diversidades de gênero, religião, raça e classe, no serviço alegre e humanizante, no doar-se integralmente ao próximo. O Jesus que, assim vivendo, questionou de forma contundente os fundamentos de um sistema social opressor, violento, excludente e atentatório contra a vida.

O Jesus Cristo que, por assim viver, não morreu velhinho nem doente sobre uma cama, mas ainda jovem foi barbaramente torturado e assassinado, que sangrou até a exaustão numa cruz, condenado pelos donos do poder com apoio de uma turba insana. Aliás, uma turba muito parecida com certos cristãos que hoje clamam pela pena de morte e a redução da maioridade penal, que se regozijam com a desgraça alheia e que disseminam ódio e intolerância.

Certamente o cristo dessa turba é outro, pintado conforme os interesses e as conveniências de cada igrejola ou cada “fiel”. A esse pseudo cristianismo, de fato, tenho aversão.

(Publicado originalmente no Varal de Notícias em 08/07/2015)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

São de Assis e perfeito de Assis!

São de Assis e perfeito de Assis
A maioria das pessoas o achava chato, impertinente, ranzinza, mal humorado. Até eu tive essa falsa impressão antes de conhecê-lo melhor. Junto com o Xavier e o Marcos Belussi, passamos a ajudá-lo na Secretaria do Santuário todas as manhãs de domingo, preenchendo as lembrancinhas de batizado. 

E foi assim que frei Rafael passou a ter uma predileção especial por nós e revelou-se uma pessoal extremamente dócil e amável. Mas nem por isso deixava de ser sincero. Nunca teve meias palavras, sempre dizia o que pensava com todas as letras, de forma direta, honesta e objetiva. 

Essas poucas horas matinais que passávamos juntos nos domingos eram de grande aprendizado, por isso senti muito quando foi transferido de Penápolis. 

Voltei a encontrá-lo em Piracicaba em 1996. Fomos, eu e a Marilda, visitar o amigo frei Carlos no Seminário São Fidélis e ele nos levou até o Convento Sagrado Coração de Jesus. Cruzamos com frei Rafael nos corredores. Foi muito afetuoso. 

Quando Carlos lhe contou que a Marilda estava grávida, estampou um largo sorriso, tocou em sua barriga e perguntou: é menino ou menina? Como a Marilda respondeu que ainda não sabíamos o sexo, ele completou: “Não importa, que venha “são” de Assis e “perfeito” de Assis. Foi a última vez que o vimos antes de sua morte ocorrida em setembro de 1997. 

No ônibus, voltando para casa, estava absorto, pensando nas palavras do frei, quando a Marilda interrompeu meus pensamentos. “Alguma vez você pensou em colocar o nome de Francisco no nosso bebê”? 

Incrível! Era exatamente isso que estava pensando. A conversa com frei Rafael produzira em mim e na Marilda a mesma reação. E naquele momento tomamos a decisão: se for menino será Francisco de Assis, se for menina daremos o nome de Clara de Assis. Com a fé e a certeza de que, menino ou menina, viria são e perfeito. 

Fé e certeza confirmadas no dia 15 de agosto de 1996, com o nascimento de um garoto saudável, tranquilo, perfeito: Francisco de Assis. Realização de um sonho, quase uma utopia. Foram nove longos anos de espera, sofrimento, frustrações, desesperanças e até incredulidade. Mas, contra tudo isso, os planos de Deus falaram mais alto e o Francisco veio dar um sentido novo, um novo sabor à nossa vida. 

No seu Batismo, frei Carlos lembrou a “profecia” do frei Rafael, meses antes, dando graças a Deus pela saúde e a perfeição do Francisco. E nos revelou: Rafael significa Deus Cura!

(Publicado originalmente no Facebook em 04/11/12)

sábado, 25 de junho de 2016

O tempo de Deus

Foi a fé que tirou Abrão de Ur, na Caldéia, e o colocou a caminho da terra prometida. Foi a fé que o transformou em Abraão, pai de uma grande descendência, tão grande quanto o número de estrelas no céu. 

Mas a fé nunca tornou fáceis as coisas para Abraão. Já idoso, com a esposa Sara também velha e estéril, Abraão por várias vezes duvidou da promessa de Deus. Nem por isso deixou de ser o homem da fé. 

Por sugestão de Sara, Abraão também tentou apressar a realização da promessa, usando o subterfúgio de procriar com uma escrava de Sara. Agar deu-lhe um filho, Ismael, que legalmente era seu herdeiro legítimo. Mas esse não era o caminho do Absoluto. Nem o seu tempo. Quando todas as esperanças já tinham acabado, eis que Sara concebeu e deu à luz Isaac, o herdeiro prometido.

A história de Abraão me veio à cabeça assim que ouvi o desabafo da Marilda naqueles primeiros dias de novembro de 1995. “Olha aqui, João Martins, você pode ter um filho com quem você quiser, porque eu desisti. Chega!” 


O desespero não era sem razão. Uma gravidez tubária, em 1988, já lhe custara uma trompa, reduzindo pela metade a possibilidade de uma nova concepção. Depois a decepção de um filho natimorto, em 1991. Agora, quando a esperança tinha renascido após um tratamento natural que eliminou um cisto ovariano de grandes proporções, vem uma gestação anembrionária. 

Nunca tínhamos ouvido falar disso, mas o médico, o mesmo dr. Décio Feola, explicou direitinho depois de repetir exames e ultrassons. O óvulo foi fecundado, implantou-se no útero, mas o embrião não se desenvolveu. É o chamado ovo cego. Só restava a alternativa de mais uma curetagem que, se não me falha a memória, foi feita no dia 7 de novembro.

A Marilda, tanto quanto eu, sonhava com uma descendência. Já tínhamos a Juliana, que amei desde a concepção e adotei como filha tão logo perdeu o pai. Mas desejávamos um filho que fosse fruto do nosso grande amor. 


Ao longo daqueles oito anos de vida comum e de tantas tentativas frustradas, de tantas buscas, chegamos a pensar na adoção e até numa fertilização artificial. Mas assim como aconteceu com Abraão, algo nos dizia que esse não era o projeto de Deus para nossas vidas. 

Veio o tratamento natural e a chama reacendeu em nossos corações, uma alegria incontida explodindo no corpo e na alma. Mas bastou o primeiro ultrassom para tudo isso ser substituído pela angústia, a incerteza, a tristeza. E, então, em seu desespero, assim como fez Sara, Marilda me sugere procurar minha descendência como bem entendesse, desde que a poupasse de uma nova dor.

Fiquei chocado, mas entendi aflição e apenas me calei. Até minha solidariedade a machucava naquele momento. Tão ferida estava, que não conseguia distinguir compaixão de comiseração. 


E foi no meio dessa angústia que brigamos muito com Deus. Cada um de seu jeito, mas brigamos. Queria apenas entender as razões de tanta dor, na ilusão de que isso pudesse amenizar o sofrimento. Mas nenhuma resposta, nenhum sinal. O Absoluto continuava ali, impassível, mudo.

Feita a curetagem, Dr. Décio foi taxativo: nada de sexo por quarenta dias, tempo necessário para a recuperação do útero. Mas no meio dessa tormenta e de outras que se sucederam naqueles dias, acabamos esquecendo da recomendação. 


Resultado: nova gravidez e uma reprimenda do dr. Décio que temia por um novo aborto, considerando que o útero ainda não estava totalmente recuperado para acolher o embrião. Novamente a incerteza, a angústia, o medo se apossaram de nossas vidas. E foram esses ingredientes que rechearam nosso Natal naquele ano, em Penápolis. Família reunida, muitos pratos apetitosos, confraternização… Mas o pensamento teimava em voltar para o enorme ponto de interrogação que representava aquele feto que a Marilda trazia em seu ventre.

Voltamos para casa no início de janeiro e com o coração na mão, fomos fazer o ultrassom pedido pelo dr. Décio. O gel sobre a barriga, o aparelho começa a deslizar e as imagens vão se sucedendo no monitor. Não foram gravadas em DVD porque ainda não existia nem em VHS porque não levamos. Por puro medo. Mas estão gravadas até hoje na memória. 


Todos riem quando digo isso, mas juro que vi, no auge da emoção, um minúsculo serzinho acenando para mim com a mãozinha ainda mais minúscula. E nesse momento sublime cresceu dentro de mim a convicção de que finalmente o projeto de Deus para nossa vida estava se realizando. E de fato se realizou meses depois com a chegada do Francisco, nosso primogênito.

(Publicado originalmente no Facebook em 02/11/12)

domingo, 19 de junho de 2016

Te amaremos sempre!

"Meu bem, acho que está na hora!" 

A voz agoniada e dolorida da Marilda Martins, vindo do quarto me chamou à realidade. No quintal, enquanto amarrava com arame recozido as armações de ferro estrivado, estava absorto em sonhos e pensamentos. Pensava nas vigas e colunas de concreto que resultariam daquelas gaiolas de ferro, sonhava com as paredes da casa subindo... E sonhava com o bebê que estava para chegar, que viria para alegrar ainda mais nossas vidas. 

Parei na hora o trabalho e liguei para meu irmão Camilo, pedindo que nos levasse para a maternidade. O trajeto até o hospital Samam, em Americana, foi recheado de uma alegre expectativa. O Camilo nos deixou no hospital e ficou de voltar mais tarde. 

Como as contrações ficavam cada vez mais frequentes e fortes, a enfermeira deu jeito de apressar o atendimento. Entramos no consultório e fomos recebidos pela saudação costumeira do dr. Décio: "Oi, Deolinda!" 

Após um rápido exame, o médico pediu à enfermeira que conduzisse a Marilda até a sala de parto. Levantei-me para também deixar o consultório, mas dr. Décio, indicando a cadeira, ordenou: "Sente-se um pouco". E com a objetividade que sempre lhe foi peculiar sentenciou: "Queira Deus que eu esteja enganado, mas acho que o bebê está em óbito". 

Fiquei chocado. Apenas balancei a cabeça, em negativa, quando ele me questionou se a Marilda desconfiava de algo. Nem sei como levantei-me daquela cadeira e subi as escadas até o terceiro andar. A cabeça girava a mil quilômetros por hora. Só então entendi o desespero do dr. Décio tentando sem sucesso ouvir os batimentos cardíacos do bebê e cobrando da enfermeira a troca das pilhas do aparelho. 

Um enorme vazio se apossou de todo o meu ser, o olhar perdido. E a espera angustiante por uma notícia, nutrindo uma enorme esperança de que uma porta se abrisse e o dr. Décio aparecesse com um bebê chorando em seu colo. Mas nada! Só olhares de piedade das enfermeiras e atendentes. 

Não sei quanto tempo transcorreu, mas para mim foi uma eternidade. Quando, finalmente, uma porta se abriu, o dr. Décio saiu. Estava sereno como sempre. Ao ver-me, perguntou se alguém já tinha dado alguma informação. Respondi que não e ele, sem rodeios, deu a notícia: "Era um menino. Já devia estar em óbito há alguns dias. A Deolinda está bem e você já pode vê-la". 

O chão sumiu sob meus pés. O desespero apossou-se de mim. Nesse momento entraram pelo corredor meus irmãos Camilo e Joaquim. Chegavam alegres pelo nascimento de mais um sobrinho sem sequer imaginar que era um natimorto. 

Entrei no quarto e encontrei a Marilda com olhar vago, distante... No abraço do reencontro apenas choramos copiosamente. Meu irmão Joaquim foi quem me trouxe à realidade desta vez: "Precisamos providenciar o funeral". 

Dividido, sai com o Joaquim e fomos à Funerária Bom Pastor, que ficava na rua Tamoio, próximo ao jornal O Liberal. Após preencher vários papéis, o funcionário levou-nos a uma sala para escolher o caixãozinho. Desabei de novo. Passei longos meses imaginando o momento de sair da maternidade para comprar uma roupinha para meu bebê, pois não sabíamos até então se seria menino ou menina. E agora estava ali, comprando não uma roupa, mas uma urna funerária. 

Pedi a meu irmão que resolvesse a situação e saí, pra chorar, uma dor incalculável corroendo meu coração. Dali retornei ao hospital Samam para ficar com a Marilda. Foi, talvez, a pior noite da nossa vida. 

Exatamente hoje ele faria 21 anos. Só vi seu rostinho por alguns minutos, antes de ser enterrado, mas a imagem continua muito viva em minha mente, os lábios rosados, o cabelinho liso... Como também continua viva a lembrança de meu pai me esperando no portão da Matriz Nossa Ssenhora Dores, onde acontecia o velório, os olhos marejados de lágrimas. Não disse nenhuma palavra, apenas um abraço forte que revelou toda a ternura e a enorme compaixão paternal. 

"Te amaremos sempre", é a inscrição que colocamos sobre a sepultura de nosso bebê natimorto, uma frase simples, que saiu de nossos corações naquele momento de dor, de comoção até, mas que a cada dia revela-se profunda, cheia de sentido, verdade irrefutável até o último dia de nossas vidas. Te amaremos sempre, anjinho querido.

(Publicado originalmente no Facebook em 17/10/12)

Um amigo especial

Nick Prince
Bobi. É só o que me lembro dele. Não me lembro da cor, do tamanho nem da raça. Só o nome, Bobi. 

E me lembro da manhã em que ele foi atropelado por um caminhão na estrada do bairro Lagoa da Mata, onde morávamos. Eu devia ter quatro ou cinco anos. 

E me lembro que senti muita raiva, talvez até um ódio infantil, daquele motorista que matou meu cachorrinho. Chorando compulsivamente, eu cutucava seu corpo inerte com uma pequena vara, querendo que ele se levantasse e voltasse a correr e brincar. Foi minha primeira grande perda. 

Para tentar compensá-la vieram o Leão e o Feroz. O Leão já veio grande, de presente de minha tia Nena. Era grande e gordo, cotó, mas extremamente dócil com todos de casa. Parceiro das brincadeiras. O Feroz ganhou merecidamente o nome porque era muito bravo. Os dois formaram uma dupla muito especial. Amigos, parceiros. 

Nos acompanharam por muitos anos enquanto moramos no sítio. Quando mudamos para a cidade não se adaptaram ao novo estilo de vida e logo se foram. 

Cresci, fiquei adolescente, jovem, adulto. E também cresceu dentro de mim a convicção de não possuir animais. De início era apenas uma tentativa de evitar a dor de novas perdas. Com o tempo aprendi, especialmente com São Francisco de Assis, que animais não foram criados para serem possuídos. 

O pobrezinho de Assis tinha predileção por todas as formas de vida, a ponto de retirar os insetos e os vermezinhos do caminho para que não fossem esmagados por algum viajante distraído. Amor à vida, independente de sua forma. 

Mas ainda chegamos a ter uma cadelinha vira-poodle, a Fofa, presente dado à Juliana Lima Lacerda quando fez três aninhos. Inteligente, fiel, obediente, conviveu conosco por longos 14 anos. Morreu velhinha, deitada na nossa varanda, olhando para dentro de casa. Outra perda e a convicção mais forte de que os animais são criados para a liberdade. 

Mais recentemente, quando me converti ao vegetarianismo, aprendi a ver os animais como parceiros de nossa existência, sujeitos portadores de direitos como nós, criaturas nem mais nem menos importantes que os humanos. 

É essa convicção que me levou a combater o assassinato de animais para transformá-los em alimentos. Não pode gerar vida nem saúde o alimento fruto de uma violência e de um assassinato. Foi essa mesma convicção que me levou a combater a escravização dos animais, seja para usá-los como alimento, seja para servirem de instrumentos de nossa diversão e lazer. 

Essa mesma convicção me levou a opor-me à ideia de aceitar um filhotinho oferecido de presente por uma colega de trabalho da Marilda Martins. Escravidão, jamais! Mas fui voto vencido e o Nick veio para nossa casa. Com toda a bela feiura de um bebê yorkshire. 

Era um pirralho atrevido. Vivia atormentando a Tatá, nossa tartaruga, com seu latido estridente e ameaçando morder suas patas e cabeça. Acho que se divertia em ver a tartaruga recolher-se rapidamente no seu casco. Com o tempo se acostumou e parou de importunar a Tatá. Ou então entendeu minhas advertências de que a tartaruga era mais velha de casa e merecia ser respeitada. 

Logo conquistou o carinho e o respeito de todos de casa. E dos amigos da casa. Tornou-se meu amiguinho, parceiro de brincadeiras diárias. Todas as tardes me esperava no portão, segurando entre os dentes seu brinquedo preferido, um Pluto de pelúcia todo rasgado pelos dentinhos afiados. Mal me via e soltava o brinquedo, numa provocação matreira, esperando que eu fizesse menção de pegá-lo. Aí agarrava de novo o bichinho e saía correndo, saltitante de alegria. 

Conseguiu me mostrar que, mesmo “aprisionado” em nossa casa, não queria e não se sentia nosso escravo. Queria e se sentia nosso amigo. 

Hoje, quando cheguei do trabalho, não o encontrei me esperando no portão. Vizinhos e amigos velavam seu corpinho frágil e ensanguentado, coberto por um jornal. Não o toquei com uma varinha tentando reanimá-lo, como fiz há 43 anos com o Bobi. A maturidade mata as ilusões infantis. Não quis vê-lo morto nem saber detalhes do seu atropelamento. Apenas senti no fundo da alma a perda de meu amiguinho. 

Agora, enquanto escrevo, sinto a falta de seu longo pelo se enroscando em meus pés, sua língua me lambendo carinhosamente, seu corpo se contorcendo no chão até encostar nos meus pés, à espera de um cafuné, seus dentinhos dando mordidelas nas pontas de meus dedos, chamando para a brincadeira. 

Adeus, Nick! Ou, quem sabe, se os animais também tiverem seu cantinho no céu, até qualquer dia desses, quando nos encontraremos todos: Bobi, Leão, Feroz, Fofa, Nick e eu. E juntos faremos da verde e florida relva (é assim que imagino o céu) nosso campo de eternas brincadeiras.

(Publicado originalmente no Facebook em 06/09/2012)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Queira Deus...

Dr. Décio com nosso primogênito
"Queira Deus que eu esteja errado. Mas..." 

Assim o dr. Décio começou seu prognóstico, sinalizando que algo de muito grave poderia estar acontecendo. Há vários dias a Marilda vinha se queixando de dores no baixo ventre. O médico do Hospital de Nova Odessa suspeitara de infecção na bexiga e pedira exames. Os dias foram passando e as dores piorando, até que um dia a Marilda "travou" na sala de aula e chegou se arrastando em casa. 

Passamos pelo Hospital, pegamos os exames e seguimos para Americana. No Hospital Samam, o clínico geral analisou os exames e garantiu que não havia qualquer infecção. Encaminhou para o ginecologista, com urgência. A Marilda preferia passar por uma médica, mas a atendente informou que apenas o dr. Décio estava atendendo naquela tarde. 

Ele nos recebeu com a sua calma e serenidade que se revelariam habituais, ao menos com suas pacientes. Examinou, procedeu uma pequena anamnese e, então, prognosticou: "Deus queira que eu esteja errado, mas tudo indica que é uma gravidez ectópica". 

Nem sabíamos o que era ectópica. Mas ele explicou, sempre sereno, que era uma gravidez onde o embrião se implanta nas trompas e aí se desenvolve o feto. Com algumas semanas, sem o espaço e a elasticidade do útero, o feto comprime as paredes da trompa e causa fortes cólicas e sagramento. 

Não havia tempo a perder. Fomos direto para o Hospital Municipal de Americana, onde a Marilda ficou internada, em observação e realizando exames complementares para confirmar ou não as suspeitas do jovem médico. Ficou chorando, cheia de medo e insegurança, quando fui para casa buscar roupas para passarmos a noite no hospital. 

Na manhã seguinte o exame confirmou: gravidez! Uma ambulância a levou ao Hospital São Francisco para uma ultrassonografia que referendou o prognóstico do dr. Décio. A gravidez era realmente ectópica, na trompa direita. 

O risco era iminente. Se houvesse o rompimento da trompa resultaria numa hemorragia interna que poderia ser fatal. Naquele mesmo dia a Marilda passou por cirurgia. Perdemos aquele feto, a Marilda perdeu a trompa e teve reduzida em 50% a chance de uma nova gravidez. A intervenção cirúrgica, porém, foi perfeita.

Passamos a nutrir uma admiração e um respeito muito grandes pelo dr. Décio, não só pela sua competência técnica, mas sobretudo pelo atendimento humano. O tempo nos revelou que essa impressão inicial era acertada. 

Ouvi do dr. Décio outras duas vezes a frase "Queira Deus que eu esteja errado", seguida de prognósticos nada favoráveis. Nas duas ocasiões estava certo. Nas duas vezes reforçou em nós a confiança em sua competência profissional, intervindo de maneira rápida, firme e eficiente.

(Publicado originalmente no Facebook em 20/06/2012)